Quando os olhos se apaixonam.

 

Quando os olhos se apaixonam ficam mais unidos, procuram o mesmo alvo. Querem ver quem os fez sentirem mais vida. Passam a comandar o resto do corpo. Ordenam que as pernas se apressem porque logo a observada chegará.

Se ela não vem, invocam a imaginação e fazem a cabeça ignorar o presente,  enxergam apenas a imagem imponente da saudade.

Se ela chega, tornam-se brilhantes atores. Sobem no palco, cantam, dançam, formam o mais misterioso espetáculo da Terra. Digo misterioso. Porque por vezes ninguém notará que os olhos estão tentando deixá-la bem.

Ao contrário das mãos, quando os olhos se apaixonam ficam alegres sem precisar tocar a observada. Sabem eles de suas limitações. Jamais poderão abraçá-la, beijá-la, porém orgulham-se de serem os únicos capazes de percebê-la.

Por isso, o corpo inteiro fica esperando a opinião dos olhos. Eles são quem dizem se ela corresponde, a partir de dados extremamente relevantes. Como a curvinha da testa, o ajeitar do cabelo, e talvez o mais instigante; o olhar dela.

Porque cada olho, lá no fundo, apaixona-se mesmo é por outro olho. Busca em outras retinas a inspiração de suas visões profundas.

Temos coisas demais para observar, dois olhos são insuficientes. Na faculdade, em casa, no trabalho, nos relacionamos com inúmeros globos oculares.

Tudo para não deixarmos a vista cansar, descansamos em vários outros olhares.

E entre tantos surge um que irá te atrair. Nele está algo que você quer conhecer e talvez nem saiba o que seja. Os olhos, estes danados, se apaixonam e não nos explicam nada.

Sem entender muito, fugimos. Fazendo-os se irritarem, ao ponto de chorarem ou recusarem-se a abrir. Fecham-se em protesto.

Mas ah… Quando eles são correspondidos. Ficam abestados. Viram duas criancinhas contentes.

Sorriem mais bonito que os dentes.

Não reclame caso os seus donos  se juntem,  a ponto de parecer que quatro olhos viraram um.  Pois é assim, meu bem.

Quando os olhos se apaixonam tomam conta da gente.

 Alan Lima

Areia demais para o teu caminhãozinho.

de blog.freepeople.com

Imagina ser tu uma caçamba e tenhas que transportar uma quantidade de areia infinita. Seriam necessárias incontáveis viagens. Nunca acabaria esta tarefa. Disto vem aquele dizer. “É areia demais para o meu caminhãozinho.”

Quem nunca se encantou por uma pessoa, calculou as probabilidades de conquistá-la e chegou ao resultado de zero.

“Eu não tenho chance.”

Sem jogar, tu nunca vencerás. Na desistência precoce tu jamais saberás se teus cálculos estão corretos. Porém, existem situações que de fato é melhor tirar o time de campo, antes de levar um cartão vermelho coletivo.

Há um terceiro cenário, o mais doloroso.

Tu saíste do teu lugar. A outra pessoa abriu espaço, acenou para uma possível vitória e o jogo começou. Surgiram sim nas respostas. Estavas bem no começo e parecia distante uma derrota. O placar seguia sem gols,  mas a torcida já comemorava nas arquibancadas, erguiam-se as faixas, é tetra!

Então, quando te sentias potente, ouviste um não.

A expectativa da conquista tornou-se num sentimento de fracasso.  O coro de é campeão entalou e calou o teu estádio. Sem fazer ideia de como deu errado,  questionas, por quê? Deste teu melhor chute e bateu na trave.

Respira e pensa.

Não somos carregadores de areia. Somos histórias. Cada gente é um roteiro desenrolando. Seremos para elas vilões,  coadjuvantes, atores principais. Nunca diretores. Jamais iremos dirigi-las e isto as tornam imprevisíveis.

Ninguém te deixou porque és menos bonito, inteligente. Apenas aquele filme não era o do momento, por fatores misteriosos. Te lembras. O ser humano é complexo, te detestarão e te amarão pelas mesmas características.

Cuida das tuas lindezas,  mais que um caminhão, és um Universo.

Que teus personagens sejam boas estrelas a te enfeitar.

Alan Lima