Deus e um Deputado.

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– Olá. Eu sou Deus.
– Que? Ficou doida, menina?
– Claro que não Carlos que nasceu dia 19 de abril, 1970, às 8:35. Que comeu pão hoje e no banheiro se olhou no espelho e pensou “eita,  tô bonito.
– Ai. Meu Deus. Você é Deus mesmo.
– Tudo bem, fique calmo. Eu só quero te avisar de uma coisa.
– O que foi que eu fiz? Me perdoa, eu falei aquilo de Onde Você tava quando o Brasil perdeu, mas foi só brincadeira.
– Ouvi isso. Eu tava vendo o jogo também. Tenho nada a ver com aquilo, cara, nem eu, nem o diabo.
– Ufa. Então, o que quer?
– Só te avisar que eu não sou igual você anda falando por aí. Chatão, cheio de não-me-toques. Pô. Eu que fiz o feijão, cara. Como é que você me faz parecer sem graça desse jeito?
– Quer dizer que você não odeia os gays?
– Claro que não.
– Quer dizer que você vai salvar os funkeiros?
– Cara. To vendo aí. Mas pode ser que sim.
– Hum. Você não é Deus. Saia daqui.
– Como não? Eu li seus pensamentos!
– Isso aí qualquer um faz.
– Eu estou levitando sua casa.
– Bobagem também.
– E o que tenho que fazer pra ser seu Deus?
– Concordar comigo.

AlanLima

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Me deram as chaves da prisão.

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Imagem do Flickr

Coloquei a culpa pela minha dor e frustração nos outros. Mimado me impendi de  avançar.

Também cogitei  nunca mais querer ninguém. Difamar o amor por aí.  É culpa desse bandido, eu sou inocente.

Coloquei no banco dos réus ex namoros, ex amigos, ex sonhos. Os culpei de terem partido. Condenei a todos e dentro de mim  fiz a cadeia deles. Virei um guarda preso pra evitar a fuga de seus detentos.

Me deram as chaves da prisão.

Eu vigiava sentimentos, sem possuir o poder de libertá-los. Abri essa cela através das palavras.
Pois bem, acreditem. Existem palavras mágicas! Menos místicas do que pensam as bruxas.  Surgem depois de nos observarmos sem a régua do bom e ruim, apenas lendo como a história nos escreveu.

Foram filmes, amigos, livros, poesia.  Me provocaram.

–  E aí o que será? Vai continuar sendo a vítima  calada e quieta?

Levantei aos poucos. Ainda estou me erguendo,  passo a passo.
Em pé posso  levantar alguém,  num exercício para  o músculo da generosidade.
Próximo verão já tenho o abdômen da minha alma sarado.

Emoção

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Sinto uma emoção no coraçãozinho e esta me leva a escrever este texto. É uma emoção que fica batendo no peito igual menino. É irresponsável, essa coisinha. Está nem aí para o preço das coisas, a alta do dólar, ou para cultura pop. Quer apenas e somente; cantar.

Então esta emoção descobre minhas cordas vocais desafinadas. Ela escuta meu canto e diz : – Cara. Você canta o canto das focas.
Eu lamento envergonhado. Mas para minha surpresa, a minha emoção quer mesmo ouvir meu canto. E eu gostando de ter voz de foca, canto para minha emoçãozinha.
Quem ouve não entende e sabe. Sucesso farei nenhum…
Pois quem precisa fazer sucesso quando já sente emoção bonita sem ele?

Mas canto baixinho, longe dos ouvidos e de status do Facebook.

Não quero incomodar ninguém, imagina. Meu canto e minhas opiniões são apenas frutos das minhas naturais emoções.

Desafinados ou afinados, fazem parte dessa construção que sou :
– Inacabada, Alan, precisando de muitos reparos.
– Principalmente na sala. É que eu quebrei a parede.
– Sério? Por que?
– Não sei. Mas é legal ser uma construção que, de vez em quando, se põe a quebrar tudo que foi mal construído.

É o meu conselho descartável da vez.
Quebra geral, gente, é emocionante quebrar!

AlanLima

Em defesa dos Figurantes

Se existe o Oscar de melhor filme, melhor ator, atriz, melhor roteiro, melhor figurino, por que não existe Oscar de melhor figurante hein? Quer dizer que aquele pessoal todo no Titanic morre daquele jeito legal e não ganha nada? E os soldados explodem, e os pedestres andam, e os motoristas dirigem, tudo em vão?

Ah, o ator tal fez uma preparação de anos para interpretar tal personagem. Ah, veja o roteirista trabalhando meses neste roteiro. Amigo, você pensa que é fácil participar de um filme, andar perto da câmera e passar longe dela sem nem acenar pra família? Sabe quantos figurantes se sentem mal, de não serem reconhecidos na rua, mas estarem lá, dando sentindo a cenas de multidão, guerras, tragédias?

Enfim, fica aí meu desabafo. Eu que nunca nem figurante fui. Se um dia eu for, já terei crédito no sindicato. Defendi a classe. Serei reconhecido por essa luta.

Ou nos oferecem espaço no Oscar, ou vai ter greve sim. Vai ter figurante acenando pra câmera, com cartaz “Filma eu, seu diretor” sim. Fundaremos nosso partido e aí mundo.

Mais um partido que nasce para defender o o que não aparece, e talvez, só talvez, terminará abraçando geral, apoiando a causa de qualquer ator principal.

Desde já, peço perdão companheiros. É que a estátua de ouro olhando a gente no olho, muda a ideologia… Mas o nome do partido, prometemos! No nome do partido ninguém vai mexer.
Dá-lhe Partido do Figurante!

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Opinião do Dia

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Não me importa em que lado você está, realmente não me importa. Só estou querendo saber se o lado que você defende, está realmente ao seu lado. Pois você, você… É o lado que realmente deve interessar.

Eu não, não mesmo, quero te convencer. Talvez às vezes, mas estas vezes você pode me ignorar. Escute mesmo, com calma, quando eu falar o que penso. Se mostro meus pensamentos, é porque vejo em você a capacidade de pensar.

Não, ninguém é melhor do que ninguém. E não, não é por isso que nós desejaremos nos tornar pessoas piores.

E se alguém te chamar de burro, pergunte qual espécie de burro. Se é o da fazenda, o selvagem, o do circo. Peça ofensa mais elaborada, por favor..

Falar mal dos outros é fácil, difícil é equilibrar um saco de cimento na cabeça e discursar dançando axé.

É sério, deve ser difícil mesmo.

AlanLima

Pão e Circo?

É carnaval, Brasil. Escolas de Samba, Blocos, Fantasias. No Norte, no Sul, no meio da Nação, nas laterais. Menino, velho, senhoras e senhoritas. Uns na Avenida, outros em casa. Nenhum meio na Avenida, meio em casa. Todos inteiramente no seu lugar. É bastante Carnaval, minha gente.

Eu vejo críticas severas. Que essas festas malignas são. Iludem o povo com pão e circo. Acabo matutando… Mas gente, não é Roma Antiga isso aqui. Já viram o preço do pão, da gasolina? Do Circo, da diversãozinha num cinema? Saudades quando nos iludiam com comida e arte (quando foi mesmo?!).

Eu?!

Eu quero criticar, com unhas e dentes, ou talvez só com palavras mesmo, aquele samba. “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé.” Temos então um sujeito que por não gostar de samba, tem mal na cabeça ou alguma enfermidade no pé.

Deixe quem não goste de samba tranquilinho na dele. Por que essa bruxaria gente amiga bonita dos sambinhas?!
Eu gosto de samba e tive doença no pé. Quem gosta de samba também sofre…

Fujam dessas pegadinhas das aparências.

Há sambas que são pragas e há pragas que são bem vindas.
Que vocês todos sejam pobres de pobreza! Que você seja burro para falsas sabedorias.

Eia! É carnaval e eu aqui, você aí. Brindemos vida vazia pra gente, amigos. Vazia da folia de impostos e impostores… Bem vazia dessas coisas que enchem o saco.

PAO

Fazedor de Textão

Você já teve uma crise de identidade? Eu tenho bastante. Não dessas crises de ficar sem saber o rumo da vida. É uma baguncinha interna legal.

Gosto de escrever, nem sei ser genial, talvez um dia eu saiba. É possível que você esteja lendo a evolução de um célebre escritor. E é igualmente possível que esteja lendo só mais uma besteira.

Eis a minha crise de hoje. Sou um escritor em evolução ou um fazedor de textão?

Eu escrevo. Bem ou mal. Célebre ou Celébro. Tô escrevendo. Cada lugar envolvendo palavra estou lá, intrometido como aquelas crianças falando durante conversa de adulto.

Agora você, seja lá quem for, tenha uma crise também. Porque eu só sei escrever pra quem tem probleminha.

Segura essa, senhor sanidade! Eu, e qualquer louco, vemos você e pensamos. “Nossa, quem é esse aí hein. Nem berra.” Disfarçamos pra você não se sentir isolado. Ué! Por que somos loucos não pensamos? Somos puro pensamento.

Para quem sente um pouquinho de loucura, sigo este texto. De fato, eu seria um escritor segundo o dicionário. Porém quem escreveu esses livrinhos de palavras, nunca me venceu no PlayStation pra dizer como devo chamar as coisas que faço. Né?

Dicionário pode chamar esse negócio de escrever texto grande de escritor. Eu vou chamar de Fazedor de Textão e ponto final.

A crise de identidade é minha, ele que vá tratar das dele.

Antes de acabar, faço minha retratação com o pessoal normal. Gente, eu gosto de vocês. Gosto muito! Só não sei falar o mesmo idioma, só isso. Vou melhorar, prometo. Tenham paciência! Não berrem, não!

Se berrarem, vou achar que ficaram loucos também. Aí ferrou. Alguém precisa ser o normalzinho ou teremos um mundo berrante. Que maravilha.

1chaves

Recíproco

Quero fazer você. Sorriso.

Ser nessa vida. Abrigo.

Suportar seus defeitos. Amizade.

Ter na sua ausência. Saudade.

Ser um velho seu. Eterno.

Não muito eterno. Sincero.

Pra tua paz de sim. Sentir.

Não me mande embora. Daqui.

Se vou, lá fico. Revolto.

Procuro outro lugar. Melhor.

Para amar e ser suficiente. Amado.

Que amor só fica bonito.

Recíproco!

Alan Lima

Quatro capítulos da vida de Maria Quermece. Capítulo I Dos Pés e da Alma.

Do filme Na Natureza Selvagem.

Do filme Na Natureza Selvagem.

Batera canela, debaixo dum sol tinhoso, atrás do tal sapatinho. Descansou na sombra de um suposto arranha-céu. Resmungando sozinha.

– O céu é duro de azul, ele que arranha os prédios.

Cogitou varias possibilidades.  A água mineral atingiu seu raciocínio. No estado científico dos argumentos, arquitetou pesquisar como a engenharia lasca o firmamento.

Prosseguiu Maria Quermece procurando sapatos pra festa.

Órfã de familiares e professora de melancolia, tenta aprender a ser feliz. Nada de ficar cantando nota arrasadora ou declarando poema triste perto dela. Queria a sorte mandando um parzinho, limpinho, ouvinte das canções alegres.

Andou e começou a achar sapatos interessantes. Quando diziam o preço ficava pálida e confusa.

– É justo negócio de usar no pé ser mais caro que o arroz de colocar na barriga?

Decidiu usar o mesmo de sempre. Pensou ser isto bastante ousado. Mudar de roupa a cada baile é a originalidade vadia. Ela seria naquela noite, singular por repetir vestido e permanecer contente.

Maria Quermece calculou seu atraso em quarenta minutos. Chegaria quando todos estariam distraídos. Quem sabe na distração, alguém acertasse com os olhos nela? Baile se agitou, engrandeceu e terminou. Nada de Maria arrumar um parzinho.

Trabalhou duro o mês inteiro, recusou cada balinha dos trocos. Conseguiu comprar vestido novo e caro.

– Agora vai Maria, agora vai.

Não foi.

Aceitou sua história invisível, abandonou os embalos da noite.

Numa semana de feriado, montada na solidão, Maria estava na feirinha. Adquirindo tomates e cebolas do Pedrin.

– Moça, eu te vi no baile. Você parou de ir por quê?

– Baile? Ah parei de ir, tenho cabeça pra essas coisas não.

– Cabeça eu não sei, agora o gingado hein?!

Depois deste diálogo, Maria Quermece teve surtos constantes.

– Ele me viu dançar, alguém me viu fazer algo, alguém.

Lavando louça na hora de enxaguar os copos, pensou alto.

– Vou é pro baile ver Pedrin.

Virou baladeira cativa. Treinou o gingado, pintou as unhas de cores claras. Vendeu hora extra pra comprar mais sapatos.

Funcionou. Pedrin a cada baile desejou mais tê-la. Nem era pelos calçados. Ele a achava uma coisinha mais linda, quando cansada de tanto gingar, ela se descalçava.

Dos pés e da alma.

Alan Lima

Palavras de mais um Velho.

cjjjEu sou mais um Velho Ano sendo deixado com fogos e festas. Alguns nasceram em mim, estarei  nos seus documentos. Outros morreram. Uma pena. Queria ter sido um Feliz Ano  de todos.  Apesar de eu querer mais. Pela saudade nos felizes, ou pelo alívio  nos tristes. Faz bem ter fim. Em Janeiro, quando comecei, minha pergunta era:

– Como ser um ano bom?

Passaram os dias e senti.

O ano é nada. O tempo  é um peso invisível. O relógio, a  balança imaginária, quantifica no máximo algo aos costumes e cientistas.

Quando dizem como o ano foi bom ou ruim.  Ninguém destaca calendário passando. O relógio avançando. O assunto são os acontecimentos, os fatos, as sortes ou flores dadas pela vida.

O ano é no máximo mais uma medida estabelecida.  Mudem o que há de chato independentemente de quantos anos novos conheceram. Pouco importa se você tem 40 ou 10 intervalos  de 12 meses. Existe o amanhã.

Sou o ano acabado. Tchau, até nunca mais. Tratem de desejar feliz ano novo o ano inteiro. Todo dia é de virada. Encontrem um alvo e prossigam. Sejam balas velozes acertando o peito da mesmice.

Agora, favor deixar o Velho virar passado em paz.

Alan Lima