Quatro capítulos da vida de Maria Quermece. Capítulo I Dos Pés e da Alma.

Do filme Na Natureza Selvagem.

Do filme Na Natureza Selvagem.

Batera canela, debaixo dum sol tinhoso, atrás do tal sapatinho. Descansou na sombra de um suposto arranha-céu. Resmungando sozinha.

– O céu é duro de azul, ele que arranha os prédios.

Cogitou varias possibilidades.  A água mineral atingiu seu raciocínio. No estado científico dos argumentos, arquitetou pesquisar como a engenharia lasca o firmamento.

Prosseguiu Maria Quermece procurando sapatos pra festa.

Órfã de familiares e professora de melancolia, tenta aprender a ser feliz. Nada de ficar cantando nota arrasadora ou declarando poema triste perto dela. Queria a sorte mandando um parzinho, limpinho, ouvinte das canções alegres.

Andou e começou a achar sapatos interessantes. Quando diziam o preço ficava pálida e confusa.

– É justo negócio de usar no pé ser mais caro que o arroz de colocar na barriga?

Decidiu usar o mesmo de sempre. Pensou ser isto bastante ousado. Mudar de roupa a cada baile é a originalidade vadia. Ela seria naquela noite, singular por repetir vestido e permanecer contente.

Maria Quermece calculou seu atraso em quarenta minutos. Chegaria quando todos estariam distraídos. Quem sabe na distração, alguém acertasse com os olhos nela? Baile se agitou, engrandeceu e terminou. Nada de Maria arrumar um parzinho.

Trabalhou duro o mês inteiro, recusou cada balinha dos trocos. Conseguiu comprar vestido novo e caro.

– Agora vai Maria, agora vai.

Não foi.

Aceitou sua história invisível, abandonou os embalos da noite.

Numa semana de feriado, montada na solidão, Maria estava na feirinha. Adquirindo tomates e cebolas do Pedrin.

– Moça, eu te vi no baile. Você parou de ir por quê?

– Baile? Ah parei de ir, tenho cabeça pra essas coisas não.

– Cabeça eu não sei, agora o gingado hein?!

Depois deste diálogo, Maria Quermece teve surtos constantes.

– Ele me viu dançar, alguém me viu fazer algo, alguém.

Lavando louça na hora de enxaguar os copos, pensou alto.

– Vou é pro baile ver Pedrin.

Virou baladeira cativa. Treinou o gingado, pintou as unhas de cores claras. Vendeu hora extra pra comprar mais sapatos.

Funcionou. Pedrin a cada baile desejou mais tê-la. Nem era pelos calçados. Ele a achava uma coisinha mais linda, quando cansada de tanto gingar, ela se descalçava.

Dos pés e da alma.

Alan Lima

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